4 de novembro de 2011

QUE RAIVA QUE EU SINTO

(também publicado no jornal Renascimento)

No próximo ano vou receber menos 24% do que recebi em 2010. Somados os subsídios de férias e Natal com o corte mensal que já vem de trás, é quanto dá, grosso modo. Ou seja, em 2012 só vão entrar em minha casa três quartos dos vencimentos que entraram em 2010. Apre! Isto deixa-me indignado, revoltado e, como já disse, dá-me cá uma raiva…

Esta minha raiva não é contra o governo que me corta o vencimento. Esse veio a descobrir o real tamanho do buraco – esperemos que não seja ainda maior – que agora tem de tapar, doa a quem doer.

A minha raiva é, isso sim, contra quem levou este país à situação desesperada que agora impõe esta brutalidade. A minha raiva é contra quem levou este país a um endividamento tal que, só de juros, nos custa 22 milhões de euros por dia. É contra quem, em plena crise internacional, ignorou todos os sinais e todos os avisos e se lançou numa desvairada espiral despesista. Contra quem se encarniçou na construção de autoestradas, muitas delas em que ninguém passa, fazendo-nos crer que eram à borla quando, afinal, eram arrendadas a amigalhaços por balúrdios pornográficos. É contra quem, dando conta da ruína do negócio das autoestradas, determinou que fossem portajadas mas, estando próximas as eleições, logo suspendeu a medida, deixando-a, mansamente, para os vindouros. É contra quem nacionalizou os prejuízos de um banco, fazendo crescer brutalmente a dívida pública, em vez de deixar que fossem os acionistas e administradores a arcar com as responsabilidades face aos mercados e aos tribunais. É contra quem pagou milhões, a uma empresa escolhida sem concurso, por uns pequenos computadores que distribuiu às crianças de escola para que com eles pudessem brincar. É contra quem gastou milhões em estudos e projetos de um mega-aeroporto, primeiro num sítio, depois noutro e depois… népia. É contra quem gastou ainda mais milhões em outros estudos e projetos de uma linha de comboio, que previamente se sabia que ia ser deficitária, para ligar o Caia ao Poceirão, que é o mesmo que dizer, para ligar nada a sítio nenhum. A minha raiva é contra quem criou e deixou criar uma miríade de fundações, institutos públicos e entidades reguladoras que para nada serviram, exceto para a finalidade com que foram criadas, ou seja, dar abrigo à imensa clientela desesperada por um ordenado chorudo. É contra quem andou a incentivar a energia eólica, e outras, comprando-a mais cara do que o preço de venda ao consumidor, fazendo recair sobre o cidadão a pesada fatura da suposta modernidade. É contra quem criou uma empresa pública para gerir o parque escolar do ensino secundário que rapidamente descambou para a reconstrução de escolas – muitas delas sem necessidade premente - escolhidas com critérios duvidosos e nunca publicitados, entregues a arquitetos e empresas também escolhidas sem concurso, que cedo acumulou uma dívida que já vai em 2 mil milhões e continua a crescer. A minha raiva é contra quem fez tudo isto, e muito mais, sem ter dinheiro para o fazer, recorrendo sucessivamente a empréstimos, internos e externos, que se acumularam numa dívida gigantesca que nos levou à fronteira da bancarrota.

Em suma, a minha raiva é, e com todas letras, contra José Sócrates e a camarilha que o rodeou. Esse é que é o verdadeiro responsável pelo decretado abaixamento do nível de vida daqueles que, como eu, são funcionários públicos.

Mas não é só José Sócrates. Esse foi, com toda a certeza, o maior delapidador das nossas finanças públicas, mas não foi o único. Foram todos os que o antecederam. Não incluo Durão Barroso porque nem chegou a aquecer o lugar, pois, quando se apercebeu do monstro que lá tinha, logo se pôs ao fresco a caminho de Bruxelas. Muito menos incluo Santana Lopes porque, como bem sabemos, cedo foi vítima do golpe de estado de Jorge Sampaio. Por isso, assim, de repente, a minha raiva estende-se a António Guterres, a Cavaco Silva e a Mário Soares, para só falar dos mais recentes.

Todos eles pautaram as suas medidas políticas pela mesma lógica. A lógica de que andar na Escola não custa dinheiro; de que ir ao hospital não custa dinheiro; de que utilizar os equipamentos públicos não custa dinheiro; de que os direitos dos cidadãos são muito mais importantes do que os seus deveres. A lógica da ilusão.

Todos eles o fizeram. E, com isso, todos eles nos foram habituando, ano após ano, a um certo modo de vida; a um certo nível de vida. E tudo poderia estar bem. E seria bom que estivesse bem. Só que, sabemo-lo agora, estava tudo mal. É que estes supostos governantes, para nos andarem a encher de benesses, a habituar-nos a uma boa vida, andaram sucessivamente a endividar o país. Isto é, há muitos anos que vivemos acima das nossas reais possibilidades. Medina Carreira bem o andou a pregar mas… era “o profeta da desgraça”. Todavia, estava carregado de razão. Andaram a enganar-nos anos e anos a fio. Até para nos pagar o vencimento mensal tinham de pedir dinheiro emprestado. E, claro, tanto pediram que nos levaram ao limiar da bancarrota. Agora já não há ninguém que nos empreste dinheiro.

Por tudo isto, a questão que coloco é a seguinte: Porquê?

De meu ponto de vista, a resposta radica na constatação de que nunca tivemos um governo realmente interessado em tomar as medidas corretas para o equilíbrio e o desenvolvimento do país. O que sempre tivemos foram governantes obcecados pela manutenção do poder. Ora, para se manterem no poder são necessários os votos dos eleitores. Então, vai de aliciar os eleitores; vai de lhes prometer isto e aquilo; vai de lhes dar este mundo e o outro; um tudo vale para caçar votos. E isto sem cuidar de saber das reais possibilidades das finanças públicas, o que, vemo-lo agora, acabou por nos levar à ruína. E agora, bem habituados que estávamos, dói-nos. Dói-nos, e muito.

A minha raiva é, afinal, contra o nosso sistema político. Um sistema assente na alternância partidária fundada no logro do voto popular.

Diz-se que a Democracia é o pior sistema político que existe, até se descobrir um melhor. Pois parece-me que está na hora de o inventar.

Agnelo Figueiredo, 19/10/2011

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